NOTÍCIAS

Fique ligado por tudo que acontece, novidades, curiosidades e afins.

PISTOLA COLT 1911 – HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO (REV. 1)

- 18/01/2018

e nós buscarmos, na história das armas de fogo, algum outro fato que se assemelhe ao fenômeno que hoje denominamos de “Projeto 1911”, sem dúvida não encontraremos equivalência. A expressão “Projeto 1911” é frequentemente empregada para se designar qualquer pistola semi-automática, produzida atualmente, cujo desenho e mecanismo foi baseado, ou é idêntico à pistola Colt Government Model 1911. A bem da verdade, não há também nenhum outro caso de um projeto tão bem sucedido na história das armas curtas em geral.

Trata-se de uma senhora honorável, veterana por quatro gerações. A Colt Modelo 1911, também conhecida como Colt-Browning, sobreviveu às duas grandes guerras mundiais, à Guerra da Coréia e do Vietnã, bem como à maior parte de outros conflitos travados pelo mundo. Através de seus inestimáveis serviços, essa pistola foi testada e re-testada inúmeras vezes nos diversos campos de batalha. Além do fato nada desprezível de ter ficado mais de 70 anos em serviço no maior e mais bem equipado exército do planeta, foi adotada por cerca de 28 países, inclusive o Brasil, como arma regulamentar e também utilizada por dezenas de forças policiais nos USA e no resto do mundo. Sem dúvida, trata-se da mais copiada ou “clonada” pistola semi-automática que se tem notícia.

A sua história nos leva, invariavelmente, à figura de quem talvez seja o mais bem sucedido projetista de armas curtas que o mundo conheceu: John Moses Browning.

Jonathan Browning, pai de John Moses Browning nasceu nos Estados Unidos, no estado do Tenesse em 1805 e sempre foi um membro ativo da comunidade Mormon por onde residia. Mudou-se ainda jovem para Nauvoo, Illinois, onde montou sua primeira oficina de consertos de armas. Paralelamente, chegou a desenvolver e fabricar algumas armas, inclusive um rifle de repetição com tambor rotativo.

Em 1851, mudou-se para o estado de Utah e fixou-se ali, no vilarejo de Ogden, como armeiro.  Em 21 de janeiro de 1855 nasce seu filho John, que ainda bem jovem e influenciado pela profissão do pai, começou a trabalhar com ele na oficina. Em 1879 falece Jonathan e seu filho John assume, com o irmão, os negócios da fábrica. Logo depois, ainda em 1879, ele desenvolve sua primeira arma, um rifle de um só tiro no sistema “falling-block”. A arma obteve um razoável sucesso entre os caçadores da região, que acabou obrigando Browning e seu irmão a começar uma produção em série, com cerca de 600 armas fabricadas.

Esse relativo sucesso abriu os olhos de um grande fabricante de armas no país, a Winchester Repeating Arms Co., de Connecticut, que enviou um representante à Ogden para avaliar melhor o projeto. Gostaram tanto da arma que logo em seguida, John Browning foi convidado a trabalhar com eles. A partir de 1883 o jovem projetista foi responsável por projetos de tanto sucesso, que mudaram o rumo da Winchester.

O modelo “single-shot” de Browning, que tornou-se um modelo de linha da Winchester, lançado depois em versão “schützen” para competições de tiro de precisão. (Cortezia do The Browning Museum)

Cópia do contrato original entre a Winchester e os irmão Browning, em 1883 (cortezia do The Winchester Museum)

Um modelo em madeira que se encontrava na oficina e que foi levado para a Winchester, viria a se tornar logo depois no famoso modelo “lever-action” de 1886, substituto do modelo 1876, versão mais reforçada desenvolvida para uso de cartuchos mais potentes. Posteriormente a Winchester lança o modelo 1892, baseado no mesmo mecanismo do 1886 mas em versão mais leve, cuja produção passou de 1.000.000 de unidades, Em 1894, sai o rifle e a carabina em calibre .30WCF (.30-30W), o primeiro modelo da fábrica a usar um cartucho com pólvora sem fumaça, que vendeu mais de 7.000.000 de unidades, sendo que até hoje ainda é fabricado.

A história de John Browning se confunde, em alguns pontos, com a de Hugo Borchardt, projetista alemão que em 1860 emigrou para os USA, trabalhando primeiramente na fábrica de máquinas de costura Singer e posteriormente na Colt, na Winchester e finalmente na Sharps Rifle Co. Com a dissolução desta última empresa, Hugo voltou à Alemanha em 1881 e projetou, em 1893, a pistola que leva seu nome, projeto que resultou posteriormente numa das mais famosas armas já fabricadas; a pistola Parabellum (Luger). Por sua vez, Browning teve alguns desentendimentos com o pessoal da Winchester o que o levou a se mudar para a Europa, em julho de 1897, onde se aliou à Fabrique Nationale D’Armes de Guerre, em Herstal, Bélgica, a conhecida FN. Veja nosso artigo sobre as Pistolas Browning.

Em 1896, a Colt Firearms, tradicionalíssima fabricante norte americana de revólveres fundada por Samuel Colt em 1836, adquiriu de Browning quatro projetos de pistolas semi-automáticas, que viriam a se tornar uma longa linhagem de armas de sucesso sem precedentes. A Colt era a fornecedora do até então adotado revólver Colt New Army em calibre .38 Long Colt, arma que estava começando a sofrer muitas críticas, principalmente pelo calibre fraco. A idéia de se adotar uma pistola semi-automática em substituição aos revólveres já era bem aceita nos meios do Departamento de Ordenança do governo americano, comandado pelo General William Crozier, uma vez que isso já era uma tendência praticada por diversos países da Europa.

MODELO 1900

Dos projetos adquiridos de Browning surge, em 1900, o primeiro modelo de pistola semi-automática produzida nos Estados Unidos: o modelo 1900, em calibre .38ACP, um novo cartucho desenvolvido especificamente para a arma. Foi também o primeiro cartucho norte-americano para armas curtas a desenvolver velocidade mais alta; só como comparação, o projétil do .38 Long Colt atingia 760 pés/seg. contra 1.260 pés/seg. do novo cartucho (cerca de 231 m/seg e 384m/seg, respectivamente).

A pistola Colt mod 1900 em calibre .38ACP, modelo com talas lisas de nogueira.

Este modelo tinha capacidade para 7 cartuchos, operada por curto recuo de cano, culatra trancada (locked-breech), com cano de 6 polegadas de comprimento. Foi a primeira arma que, com sucesso, utilizou o sistema de trancamento que utilizava ressaltos na parte superior do cano, que se encaixavam em rebaixos usinados na parte inferior do ferrolho. O cano, em seu curto recuo, basculava sobre duas articulações, pequenas bielas, uma em cada extremidade do cano.

Talvez uma das únicas características negativas da arma era a forma como o ferrolho era fixado à armação. Para que o ferrolho não deslizasse totalmente para fora da arma durante seu movimento para trás, havia somente um pequeno retém deslizante, que atravessava o ferrolho de lado a lado, solução muito similar à usada na pistola Steyr de 1911, arma que também é alvo de um nosso artigo. Essa solução, entretanto, perdurou ainda por vários modelos até ser abandonada em 1909. Essa aparente fragilidade não parece ter causado maiores problemas de segurança, até onde se sabe. Mesmo assim, todo cuidado é pouco ao utilizar essas armas hoje em dia, devendo ser cuidadosamente inspecionadas. O grande perigo, porém, reside na utilização acidental de munição calibre .38 Super Auto, cartucho exatamente idêntico em dimensões ao .38 ACP, porém com muito mais potência. O modelo 1900 não dispunha de uma tecla para trava de segurança. Ao invés disso, um engenhoso sistema de alça de mira móvel atuava como bloqueio para o movimento do cão.

Na figura ao lado, nota-se a alça de mira que, quando baixada, atuava como um retém para o cão.

O Exército Americano adquiriu 200 armas ainda no ano de 1900, para testes. Essas pistolas foram marcadas com as letras US ao lado do guarda-mato. Algumas poucas unidades foram compradas pela Marinha, e essas dispunham da marcação USN.

A marcação de fábrica mais comum nestas armas era a seguinte: “BROWNING’S PATENT PAT’D APRIL 20, 1897” do lado esquerdo do ferrolho e “AUTOMATIC COLT CALIBRE 38 RIMLESS SMOKELESS” do lado direito. A produção total desse modelo atingiu cerca de 3000 unidades, o que as torna um ítem raro de coleção.

Um dos últimos exemplares do modelo 1900, o qual já incorporava algumas características do modelo 1902: o cão arredondado e as talas de baquelite.

SPORTING MODEL 1902

Esse modelo foi uma versão modificada da 1900 onde foi removida a alça de mira que atuava como trava de segurança, em favor de um percussor flutuante. Neste sistema, o percussor, também chamado de inercial, só tem condições de atingir a espoleta do cartucho quando é atingido pelo cão em seu curso total, devido ao seu comprimento reduzido. A área engravada no ferrolho, que servia como anti-derrapante para o polegar, foi aumentada e seu desenho modificado.

A partir daqui, é importante salientarmos a enome influência que um evento governamental muito importante teve sobre a Colt e a evolução de sua nova pistola, bem como sobre toda a indústria de armamento leve dos Estados Unidos.

A partir de 1901, o Ministério da Defesa do Governo Norte-Americano, através de seu Departamento de Ordenança, iniciou uma espécie de “competição” que abria uma oportunidade para diversos fabricantes do mundo todo participarem com seus projetos, e visava testar e depois definir qual seria a futura arma curta adotada pelas Forças Armadas. Detalharemos mais abaixo como foi a condução e o resultado destes testes.

MODELO MILITAR 1902

Era importantíssimo para os negócios da Colt continuar fornecendo armas ao seu maior cliente: o Governo Americano. Com o anúncio da realização dos testes citados acima e de olho no potencial militar, a Colt anunciou em 1902 o Modelo Militar, que contava com algumas modificações: aumento da capacidade de cartuchos no carregador, de 7 para 8 cartuchos; incorporação de uma argola para a passagem do cordão de segurança; uma empunhadura pouco mais longa e quadrada e o mais importante, um “hold-open“, dispositivo destinado a manter o ferrolho aberto após o último disparo. Isto tem duas finalidades: servir como alerta ao atirador de que a munição acabou e permitir, após a inserção de novo carregador, que o ferrolho se feche, acionando-se uma tecla. Este modelo foi produzido até 1928, com cerca de 18,000 armas fabricadas. Em 1908, a Colt alterou a posição das ranhuras anti-derrapantes da posição frontal para a posterior, tal como já estava sendo usado a partir da Colt 1903.

O modelo Militar de 1902 com as modificações adequadas à finalidade militar: anel para cordão de segurança, tecla para liberar o ferrolho após o último disparo e “spur-hammer” (spur=espora).

Acima, vista explodida do modelo 1902 e 1903 “Pocket”, parte do manual fornecido na época

Acima, desmontagem parcial da Colt Military modelo 1902 em calibre .38 ACP com as seguintes peças: (1) ferrolho, (2) cano com duas bielas, (3) trava de desmontagem, (4) mola recuperadora, (5) guia da mola recuperadora, (6) armação completa e (7) carregador. 

POCKET MODEL 1903

Paralelamente ao mercado militar, a venda de armas comerciais também era um excelente negócio. Daí, surge a idéia de lançar uma pistola adequada à esse perfil de consumidores: o modelo Pocket de 1903. A maior inovação deste modelo é que ele possuía um cano com comprimento de 4 1/2″ ao invés das 6″ encontrada no modelo 1902.  Com o tamanho e peso reduzidos, este modelo era bem mais adequado ao porte pelos civís, que achavam os modelso anteriores muito grandes para uso dissimulado. Estruturalmente, não havia nenhuma mudança para modelos anteriores, principalmente no que tange ao mecanismo interno; não possuía o “hold-open” mas foi mantida a solução do percussor flutuante, ao invés de se usar uma trava de segurança externa. O cartucho empregado continuava sendo o .38 ACP.

O modelo Pocket de 1903, com dimensões reduzidas em relação ao modelo 1902. Essa versão da foto está com o cão tipo “spur-hammer”, mas foi fabricada também com cão arredondado, similar ao do modelo 1900.  (foto do autor)

Uma Colt 1903, oferecida com cabo de marfim e o medalhão com logotipo Colt

MILITARY MODEL 1905

Em 1907 o Governo dos Estados Unidos deu início aos chamados U.S. Government Trials,  o processo para testes e dotação de uma nova arma de porte individual, para substituição dos revólveres Colt em calibre .38.

Nosso artigo “A Colt 1911 – Os U.S. Trials de 1907“, aqui neste site,  reporta de maneira bem detalhada todo esse procedimento. Lendo-o você tomará conhecimento de quais as armas que participaram da contenda e qual foi todo o desenrolar dos testes.

Os exemplares que destinados ao teste de 1906 eram, na verdade, quase idênticos ao modelo 1902, mas adaptados para o uso com o novo cartucho desenvolvido pela própria Colt, e que fôra o aceito pelo governo. O comprimento do cano foi reduzido para 5″, pois havia um consenso geral entre o pessoal de testes que o cano de 6″ provocava demasiado peso na frente, deixando a arma desbalanceada e com tendência a disparar tiros instintivamente para baixo.

A inscrição padrão para essa arma era “AUTOMATIC COLT CALIBRE .45 RIMLESS SMOKELESS”. Nota-se o interesse da Colt em salientar que o cartucho era sem aro “rimless” e utilizando pólvora sem fumaça.

O modelo 1905, já em calibre .45 ACP, destinada para os testes do campo de provas em 1906 e 1907. Apesar de que sua aparência já se aproximava do projeto final de 1911, manteve-se ainda o retém do ferrolho na parte dianteira e a ausência de travas de segurança externas. Note o longo extrator externo, substituído posteriormente, na 1911,  por um modelo embutido no ferrolho.

Durante os anos seguintes, a Colt redesenhou e aperfeiçoou essa arma, baseando-se nas exigências dos técnicos e dos problemas que ocorriam. Esses modelos foram posteriormente chamados de 1907, 1909 e 1910, basicamente a mesma pistola de 1905 com leves alterações.

a22img5

Pistola Colt modelo 1907, em calibre .45 ACP. Praticamente já estavam definidas aqui todas as características principais que iriam gerar o modelo 1911.

MILITARY MODEL 1911

Tendo em mente que a Colt pretendia vencer de qualquer maneira a competição dos U.S. Trials, todos os esforços de John Browning e a equipe de engenheiros foram dedicados quase exclusivamente à essa missão. Sendo assim, nos anos de 1907 até 1910 a fábrica apresentou ao pessoal do Comission Board dezenas de modelos, cada um com mais alguma inovação ou com correções de defeitos detectados nos campos de prova.

Pistola modelo 1909 enviada para os testes: ainda com o ferrolho com retém, cano com dois balancins mas com já com a trava de empunhadura, exigência do pessoal da Comissão.

Esquema de uma 1908/1909 – empunhadura arredondada, ferrolho redesenhado sem retém, cano com somente um balancin, trava de empunhadura e retém do carregador na posição superior, atrás do guarda mato.

Modelo 1910, praticamente uma pistola 1911 definitiva.

Para os derradeiros testes, a Colt apresenta a sua versão quase definitiva, chamada por alguns autores como modelo 1910 mas que na verdade, já era o que viria a ser a definitiva 1911. Essas mudanças  foram as seguintes:

1- Ferrolho redesenhado, agora com a  parte frontal inteiriça, abrigando o retém da mola recuperadora e eliminado a chaveta deslizante que servia de retém do ferrolho.

2- Mudança na inclinação da empunhadura, possibilitando uma “caída” mais natural na mão do atirador, bem como alargamento da sua base, melhorando a ergonomia geral.

3- Adição de duas travas externas de segurança; além de se manter o percussor inercial. A primeira delas, uma trava de duas posições, que podia ser movida pelo dedo polegar da mão direita, e que era montada do lado esquerdo da armação. Com o cão armado, a trava acionada impedia a sua queda. A trava não podia ser acionada com o cão desarmado. A segunda trava era, na verdade, uma peça montada na parte posterior da empunhadura, que era naturalmente pressionada para dentro da arma quando a mesma era empunhada pela mão do atirador. Sem esse pressionamento não era possível desarmar ou disparar a pistola. Essa trava de empunhadura foi uma insistência do Exército pois Browning, até então, não apreciava muito essa solução.

4 – Dispositivo de retenção do ferrolho “hold-open” redesenhado, possibilitando ser desarmado usando o dedo polegar, posicionado bem acima do gatilho.

5 – O retém do carregador, antes uma tecla na base da empunhadura que forçava o uso das duas mãos para se retirar um carregador, agora dispunha de um botão convenientemente colocado logo atrás do gatilho, podendo ser pressionado pelo polegar da mão direita.

6 – Gatilho alongado, para aumentar a distância entre a tecla e a parte posterior da empunhadura.

7 – Eliminação de um dos dois balancins do cano, utilizando-se agora só um, traseiro, cuja articulação aproveita o mesmo pino usado para a articulação da tecla do “hold-open”, que atravessa o corpo da arma de um lado a outro.

Acima, o modelo 1909 e abaixo o 1911, na forma como foram apresentados e testados no campo de provas de Springfield, e onde se pode avaliar com mais detalhes as diferenças implementadas. Com excessão de algumas peças internas quase iguais, pode-se dizer que se trata de uma nova arma. (Foto do autor)

O cartucho que era originalmente usado até agora também sofreu modificações; o peso do projétil passou de 200 para 230 grains com diferença também no tipo e peso da pólvora. Com esses detalhes, a potência do cartucho foi aumentada consideravelmente, o que também deve ter influído na decisão, acertada, de se redesenhar o ferrolho.

Os testes se prolongaram até o mes de março de 1911, quando finalmente a Comissão decidiu que somente duas armas permaneceriam em testes: a Colt e a Savage. Esta última sofreu nos derradeiros testes com a quebra de algumas peças enquanto a Colt suportou cerca de 6.000 tiros sem ocorrer nenhum problema.

A pistola norte-americana Savage, modelo 1907, em cal. 45, modelo idêntico ao que foi submetido aos testes em Springfield e única arma a permanecer em testes juntamente com a Colt.

Finalmente, todo o esforço dedicado por Browning e a Colt foi coroado: após as análises obtidas nos resultados dos testes, o Departamento de Ordenança publica o veredicto final: a pistola apresentada pela Colt venceu a última concorrente em todas as provas efetuadas. Logo em seguida, o Depto. de Ordenança emitiu a declaração oficial da dotação da arma pelo Governo, sob a nomenclatura oficial de U.S. Service Pistol model 1911.

Modelo militar da 1911, exatamente idêntica à adotada logo após o U.S.Trial de Springfield – (Foto do autor)

A MODELO 1911 EM SERVIÇO

A estréia em combate e em grande estilo da nova arma estava bem mais próxima do que se imaginava. Com a eclosão da I Grande Guerra, embora os USA ficassem ainda alguns anos fora do combate, a Inglaterra sofria terrivelmente com escasses de armamento. Na alçada de armas curtas, os revólveres Webley já estavam dando o que tinham de dar e o Exército Britânico encomendou da Colt 10.000 pistolas 1911 recalibradas para uso do cartucho .455 Webley Auto, utilizado na pistola do mesmo nome. Do lado direito do ferrolho levam a inscrição “Calibre .455” e a numeração serial se incia em W 100.001. Tanto o Exército como a Marinha Real, bem como os canadenses, fizeram uso dessa pistola. Após a guerra, várias dessas pistolas foram transferidas para a Royal Air Force e pouco antes da II Guerra, declaradas fora de serviço, foram vendidas a comerciantes norte-americanos. O cartucho .45ACP pode ser usado nessas armas mas com ressalvas, pois nem sempre a fazem funcionar de forma perfeita.

Em 1912 a Noruega resolve adotar como arma regulamentar a pistola Colt 1911 e devido ao fato de que fabricantes americanos não tinham, na ocasião, condições de suprir o pedido noruegues, o país resolve fabricar a pistola “em casa”, sob licença obtida da Colt Firearms, a partir de 1919. Cerca de 33.000 armas foram produzidas, com as inscrições “11,25 mm. Automatisk Pistol Model 1914”.

Os Estados Unidos entraram na I Grande Guerra em 1917 e logo após, o Comando percebeu da necessidade de que mais homens realmente precisavam do apoio de uma arma curta individual. No esforço de guerra, a Colt não conseguia dar conta de toda a demanda. Assim a Remington recebeu um pedido de 150.000 pistolas, o que se tornou logo insuficiente, causando a distribuição, em 1918, dos desenhos da arma para fabricantes que nunca haviam feito armas antes, como a National Cash Register, Burroughs, Caron Brothers e outras. Porém, logo o conflito terminou e esses fabricantes nem sequer produziram qualquer peça. As únicas que realmente tomaram parte do conflito foram feitas pela própria Colt, pela Remington e pelo arsenal de Springfield.

Abaixo a relação dos fabricantes norte-americanos que assinaram contratos de produção das pistolas 1911, com as respectivas quantidades contratadas, mas que na verdade não chegaram a fabricar nenhuma peça:  Winchester Repeating Arms (100.000), A. J. Savage Munitions (100.000), Burroughs Adding Machines ( 250.000), Lanston Monotype (100.000), National Cash Register (500.000) e Savage Arms (300.000). No Canadá tivemos a Caron Brothers com 300.000 armas e a Dominion Rifle Plant (Ross) com 50.000 pistolas. Durante a I Guerra, as Forças Armadas Americanas receberam um total de 446.000 pistolas, das quais 425.000 foram de fabricação Colt. Ao término do conflito, 169.164 armas foram desaparecidas ou perdidas.

A PRIMEIRA MODIFICAÇÃO – MODELO 1911A1

De 1911 até 1921 a Colt não implementou nenhuma modificação na pistola. Então, em 1921 a Colt resolveu fazer algumas modificações, todas elas de certa forma intercambiáveis com os modelos anteriores. Essa nova versão da arma se denominou de 1911A1.

Primeiramente, desenhou-se uma nova peça, posicionada na parte traseira da empunhadura, logo abaixo da trava de segurança, com um novo formato mais arqueado e depois zigrinado. Essa peça, além de servir como alojamento da mola do cão, com o novo formato fornecia uma melhor empunhadura à arma.

a22img8

Um dos primeiros protótipos da Colt modelo 1911A1, com as modificações efetuadas em 1924, incluindo gatilho mais curto, usinagem do guarda-mato e curvatura proeminente da empunhadura. Trata-se de um modelo fabricado para testes, onde se nota o acabamento geral bem mais rústico. (Foto do autor, coleção particular)

Outra pistola Colt 1911 A1 de produção de 1924, primeira série com as alterações implementadas (coleção particular)

O gatilho e o guarda-mato foram alterados; a tecla do gatilho foi encurtada mas o curso permaneceu o mesmo. Especula-se que isso foi devido à aumentar a área livre do guarda-mato e permitir o melhor manuseio quando o atirador estivesse usando luvas. A bem da verdade, hoje em dia, a primeira coisa que vários atiradores modificam nas suas 1911A1 é o gatilho, retornando-o ao seu tipo antigo.

Modelo comercial da 1911A1, produzida em meados de 1934 – Foto do Autor

O cão também teve seu desenho modificado e a parte saliente da trava de empunhadura foi aumentada. Isso resolveu dois problemas de uma vez: facilitava o desarme do cão com uma só mão, porque a cabeça do cão podia pressionar essa nova extensão da trava, acionando-a automaticamente. Outro detalhe eram as conhecidas “mordidas” que se costumava obter na mão, na área situada entre o polegar e o indicador, que era mastigada entre o cão e a extensão da trava. Esse problema, na verdade, não foi totalmente resolvido. Até hoje alguns atiradores com mãos grandes sofrem deste “acidente”.

II GUERRA MUNDIAL

Pouco antes da eclosão da II Guerra, em 1937, o Governo Brasileiro iniciou um acordo com o governo norte-americano e a Colt Firearms para fornecimento das pistolas Colt 1911A1 ao Exército, plano esse de substituição gradual dos revólveres Smith &Wesson 1917, oriundos de outro contrato de grande porte, e das pistolas Parabellum (Luger) do contrato de 1908. Na verdade a pistola nunca chegou a substituir os revólveres em sua totalidade, principalmente porque, a partir de  1939, não haveria mais condições da Colt continuar mantendo contratos com outros países em virtude do conflito que eclodiu, envolvendo a Inglaterra, país aliado com o qual a Colt já mantinha um contrato de fornecimento em caráter prioritário.


colt-brazilian-contract-01

Pistola Colt Government Modelo 1911A1, um dos exemplares oriundos da grande importação de 1937, devidamente “brasonada”, nas mãos de coleção particular. 

1911a1gm_C194369a

Modelo 1911A1 do Contrato Brasileiro, em condição impecável, da coleção de Greg Friedmann (USA)

De 1937 a 1941 o Governo Brasileiro adquiriu 14.500 pistolas, para suprir o Exército. A numeração serial dessas armas compreendiam de C188000 a C209000. As talas eram de nogueira americana zigrinadas em toda a sua superfície, e não possuíam o medalhão da Colt. Do lado direito do ferrolho encontra-se o Brasão de Armas da República e as incrições Exército Brasileiro, seguida da numeração do Exército (de 1 a 14.500), e em baixo, o ano de 1937, embora existam versões com outras datas, como 1940.

Apesar de que as 1911, a partir de 1937, já estavam utilizando um dispositivo de segurança adicional, a chamada Schwartz Safety, os exemplares que vieram para o Brasil não possuíam esse dispositivo. Trata-se de uma segurança adicional, onde a trava de empunhadura traseira bloqueava o percussor, quando não estava pressionada. As posteriores Colt Series 80 possuem um dispositivo semelhante, mas não se trata exatamente desse mesmo mecanismo.

capturar

Inscrições do lado esquerdo da Colt 1911 do Contrato Brasileiro, as mesmas dos modelos comerciais disponíveis nos USA na época.

Por força de contrato com o governo americano, as pistolas fizeram parte do arsenal a ser utilizado pela FEB; o restante do armamento (fuzis, metralhadoras, etc.) seria cedido à FEB já na Itália. Somente os oficiais foram autorizados a levar as 1911 como arma de porte. Como a Parabellum ainda era uma pistola de dotação do Exército, pesquisadores afirmam que elas também podem ter sido levadas por oficiais, mas isso é uma suposição, visto que o cartucho 7,65mm Parabellum não era compatível com o armamento norte-americano. Os revólveres S&W Mod. 1917 também foram levados e utilizados como “side-arm” por oficiais. Pilotos da FAB utilizavam os S&W Military & Police em calibre .38SPL como arma de defesa. Não se sabe se todas as 25.000 pistolas do contrato foram para a Itália, mas acredita-se que grande parte dela seguiu para lá, mantendo aqui várias delas de uso do contingente que não embarcou. Grande abraço.

No início da II Grande Guerra, o arsenal norte-americano contava com cerca de 375.000 pistolas 1911 mas mesmo assim, com a entrada do país na guerra, em 1942, a Remington Rand (1.000.000 de armas) , a Union Switch (55.000), a Ithaca Gun Co.&nbs